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Em muitas partes do mundo, as pessoas preocupam-se com a água suja que conseguem ver: ribeiros lamacentos, resíduos industriais ou poluição por plásticos. Mas os cientistas estão cada vez mais…
Em muitas partes do mundo, as pessoas preocupam-se com a água suja que conseguem ver: ribeiros lamacentos, resíduos industriais ou poluição por plásticos. Mas os cientistas estão cada vez mais preocupados com os vestígios invisíveis de medicamentos que fluem silenciosamente através de rios e sistemas de água potável, sem que existam meios para os deter.
A investigadora Selina Ama Saah, química de materiais do Departamento de Ciências Químicas da Universidade de Energia e Recursos Naturais do Gana, e a sua equipa estão a desenvolver um material de baixo custo para capturar poluentes farmacêuticos que os sistemas de tratamento convencionais não conseguem alcançar.
“Os produtos farmacêuticos são concebidos para serem biologicamente ativos”, afirma.
“Mesmo em concentrações muito baixas, podem ter efeitos não intencionais em organismos aquáticos, em ecossistemas e, potencialmente, na saúde humana ao longo do tempo.”
Uma ameaça oculta e crescente
A poluição farmacêutica de massas de água está a ser cada vez mais detetada em África, mas raramente é notícia e é monitorizada apenas esporadicamente.
Hospitais, agregados familiares, fabricantes de produtos farmacêuticos e escoamento agrícola contribuem com resíduos que entram nas massas de água praticamente sem tratamento.
A presença de antibióticos em ambientes aquáticos acelera o desenvolvimento de bactérias resistentes a medicamentos, um problema que a Organização Mundial de Saúde classificou como uma das maiores ameaças que a humanidade enfrenta.
Nas regiões em desenvolvimento, as infraestruturas limitadas de tratamento de águas residuais tornam as comunidades especialmente vulneráveis.
“Os sistemas de tratamento de águas residuais são frequentemente limitados, o que significa que a água contaminada com produtos farmacêuticos pode chegar às comunidades com pouco ou nenhum tratamento”, afirma Saah.
Construir um material mais inteligente

O projeto de Saah, intitulado ‘Remediação Sustentável da Poluição por Resíduos Farmacêuticos em Massas de Água: Abordagem de Adsorção por Nanocompósito de Biocarvão‘, está a desenvolver um material compósito concebido especificamente para capturar e destruir contaminantes farmacêuticos.
Os investigadores estão a combinar biocarvão, um material semelhante a carvão vegetal produzido a partir de resíduos de biomassa, com nanopartículas de óxido de zinco.
O biocarvão atua como uma esponja, atraindo poluentes para a sua superfície porosa, enquanto as nanopartículas os degradam sob luz através de um processo fotocatalítico, um sistema de dupla ação que combate contaminantes que o tratamento convencional tem dificuldade em remover.
A equipa de Saah utiliza um método de síntese sem solventes, eliminando a necessidade de solventes orgânicos tóxicos e dispendiosos. É um processo mais ecológico, mais barato e mais adequado para ampliação em contextos com recursos limitados. Os primeiros resultados são encorajadores: a equipa produziu nanoestruturas com elevada pureza e formas controladas que aumentam a área de superfície e melhoram a eficiência de remoção de poluentes.
Um passo significativo em frente
A especialista independente em energia e sustentabilidade, diretora executiva do Clean Technology Hub, Ifeoma Malo, acredita que a investigação aborda diretamente uma categoria negligenciada de poluição que os sistemas existentes não conseguem remover.
“O que distingue esta investigação é a integração deliberada de dois materiais complementares num único sistema compósito especificamente adaptado para resíduos farmacêuticos”, afirma. “Num campo onde muitas tecnologias são demasiado dispendiosas, demasiado intensivas em energia ou não especificamente concebidas para contaminantes farmacêuticos, esta abordagem oferece um avanço significativo.”
Malo observa que, embora as nanopartículas de óxido de zinco exijam manuseamento cuidadoso e estudos de segurança adicionais, fixá-las em matrizes estáveis como o biocarvão reduz o risco de partículas livres entrarem na água tratada. “Defendemos uma abordagem cautelar mas progressiva que não interrompe a inovação, mas garante que as avaliações de segurança acompanham o desenvolvimento científico”, afirma.
Da bancada de laboratório à torneira comunitária
Permanecem obstáculos significativos antes que a tecnologia possa passar do laboratório para o uso quotidiano, entre eles a consistência de ampliação, a recuperação de nanopartículas, a aprovação regulamentar e a aceitação comunitária.
Malo afirma que o progresso exigirá colaboração entre química, engenharia, saúde pública e formulação de políticas, bem como testes-piloto em ambientes aquáticos reais representativos das condições no Gana e em toda a região.
Saah afirma que os materiais poderiam ser incorporados em unidades de filtração simples ou membranas revestidas ao nível doméstico ou comunitário, recorrendo a resíduos agrícolas para o componente de biocarvão e evitando insumos dispendiosos, reduzindo a dependência de tecnologia importada.
Financiamento SGCI e próximos passos
O financiamento da SGCI foi fundamental para levar a investigação à sua fase atual, apoiando equipamento, materiais, ferramentas de caracterização e a formação de estudantes e investigadores em início de carreira.
“Criou um ambiente propício ao desenvolvimento de capacidades, garantindo que a especialização que está a ser desenvolvida não permanece com um único investigador, mas se enraíza na próxima geração de cientistas ganeses”, afirma Saah.
Os próximos passos incluem o desenvolvimento e otimização de compósitos completos de biocarvão–óxido de zinco e a progressão para testes à escala-piloto.
Estão a ser exploradas parcerias com a indústria e partes interessadas para facilitar a eventual transferência de tecnologia.
Para além dos avanços científicos, Saah espera que a investigação contribua para um futuro em que as comunidades possam aceder a água mais limpa e segura utilizando tecnologias desenvolvidas tendo em conta as realidades locais.
“O objetivo final é melhorar o acesso a água limpa, reduzir a poluição ambiental e apoiar a saúde pública”, afirma.
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Publicado a 26 de maio de 2026
Por Jackie Opara-Fatoye
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