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[NAIRÓBI] Rose Osore cultiva mandioca na sua pequena exploração no condado de Busia, no oeste do Quénia, há décadas. Tal como muitos agricultores da região, herdou a prática da sua…

Leitura rápida
  • Um projeto está a ajudar pequenos agricultores a comercializar mandioca no condado de Busia, no Quénia
  • O projeto visa reduzir o desperdício de mandioca e reforçar a segurança alimentar
  • Investigadores desenvolveram variedades da cultura resistentes a doenças

[NAIRÓBI] Rose Osore cultiva mandioca na sua pequena exploração no condado de Busia, no oeste do Quénia, há décadas.

Tal como muitos agricultores da região, herdou a prática da sua mãe, mas nunca a considerou particularmente rentável.

“Tenho cultivado para consumo doméstico… por vezes doo aos meus vizinhos quando tenho excedentes”, afirmou Osore.

Esta abordagem ao cultivo da mandioca tem sido tradicionalmente comum em todo o oeste do Quénia, com os agricultores a cultivarem a planta principalmente para as necessidades familiares e não para fins comerciais.

Os investigadores a exibir produtos derivados da mandioca.

Sem mercados fiáveis, os excedentes das colheitas acabavam frequentemente por se perder ou ser doados, impedindo os agricultores de concretizarem o potencial económico da cultura.

Isto começou a mudar em 2023, quando a Universidade de Ciência e Tecnologia Masinde Muliro (MMUST) do Quénia estabeleceu uma unidade de processamento no condado de Busia, como parte de um projeto-piloto financiado pelo Fundo Nacional de Investigação do Quénia, que também inclui investigação para desenvolver variedades de culturas resilientes.

A fábrica tem capacidade para moer uma tonelada de farinha de mandioca por dia a partir de cinco toneladas de mandioca fresca.

Para Osore, a unidade de processamento representa um mercado garantido que mudou completamente a sua perspetiva sobre a agricultura.

“Agora, com um mercado pronto, sinto-me encorajada a plantar e quero aumentar a minha área de cultivo”, disse Osore.

“Muitas pessoas da minha vizinhança vêm à minha exploração e sentem-se motivadas a dedicar-se ao cultivo da mandioca.”

Tom Wawire, outro agricultor local, afirma que a mandioca, que já é um alimento básico para mais de 800 milhões de pessoas em África, se está a tornar a cultura preferida na região.

“O cultivo do milho envolve muito trabalho físico que não traz retorno ao investimento”, afirmou.

“A mandioca apenas necessita da preparação da terra e da plantação, e também consegue resistir a pouca chuva, ao contrário do milho.”

Resiliência climática

Vitalis Ogemah, o investigador principal do projeto e professor de agricultura na MMUST, afirma que o projeto visava abordar os custos crescentes dos alimentos ricos em energia e das rações animais, causados principalmente por uma dependência excessiva do milho, uma cultura cada vez mais vulnerável às secas induzidas pelas alterações climáticas.

Referiu que a iniciativa procura diversificar as fontes alimentares e reforçar a segurança alimentar e nutricional, promovendo o cultivo da mandioca e desenvolvendo produtos à base de mandioca ricos em nutrientes para consumo humano e animal.

Uma componente fundamental do projeto foi a identificação e distribuição de variedades de mandioca resistentes a doenças, afirmou Ogemah. Os agricultores também são ensinados a realizar vigilância para identificar casos isolados de doenças o mais cedo possível.

Investigadores da MMUST e da Organização de Investigação Agrícola e Pecuária do Quénia realizaram a caracterização molecular de variedades de mandioca para encontrar aquelas que são tolerantes a doenças comuns, como o mosaico da mandioca e a estria castanha da mandioca.

“As variedades identificadas foram testadas quanto à resistência às doenças e aquelas que apresentaram um nível aceitável de tolerância foram recomendadas para multiplicação”, disse Ogemah.

Referiu que o projeto avaliou as necessidades dietéticas de vários grupos de consumidores, incluindo bebés e pessoas com doenças não transmissíveis.

“Os nutricionistas identificaram os requisitos nutricionais de diferentes categorias de consumidores e misturaram variedades de mandioca para satisfazer esses requisitos”, afirmou.

“[Eles] também consideraram a compatibilidade dos produtos utilizados na mistura da farinha de mandioca.”

Ganhos financeiros

Ogemah acredita que o impacto económico para os agricultores participantes poderá ser substancial. Espera-se a moagem de 320 toneladas de farinha de mandioca no próximo ano, com raízes fornecidas por cerca de 200 agricultores.

“A um preço de 15 KES (0,12 US$) por quilo de mandioca fresca, os agricultores [coletivamente] ganharão 24 milhões de KES (185.582 US$) no próximo ano com as suas raízes de mandioca fresca”, afirmou.

O processamento da mandioca em farinha também gera cascas de mandioca que podem ser utilizadas para produzir rações animais saudáveis, ajudando a reforçar a produção pecuária, acrescentou Ogemah.

Arnold Musungu, economista de desenvolvimento e bolseiro de investigação do Banco Mundial, afirma que a comercialização é importante para fortalecer a cadeia de valor da mandioca.

De acordo com Musungu, isto gerará uma fonte estável de rendimento para os pequenos agricultores.

“Os agricultores são incentivados a adotar melhores variedades e tecnologias que aumentam a produtividade quando começam a produzir mandioca para os mercados, em vez de apenas para o seu próprio consumo”, afirmou.

Referiu que tal permitiu aos agricultores acrescentar valor aos seus produtos, estimulando o desenvolvimento nas zonas rurais.

“Os gastos locais aumentam à medida que os agricultores geram rendimentos mais consistentes, fomentando o crescimento de negócios complementares, incluindo fornecedores de fatores de produção agrícola, unidades de processamento e serviços de transporte”, acrescentou Musungu.

Richard Mulwa, professor de horticultura na Universidade de Egerton, no Quénia, afirma que a mandioca é uma cultura alimentar fiável para áreas com elevada vulnerabilidade a choques climáticos.

“A mandioca tolera condições de cultivo adversas de seca, solos pobres e calor elevado”, disse Mulwa.

“Espera-se que estas condições se tornem mais frequentes com os efeitos crescentes das alterações climáticas.”

A mandioca também se adapta bem ao consórcio de culturas e a sistemas agroecológicos que ajudam a preservar a cobertura do solo e a prevenir a erosão, acrescentou Mulwa. Apelou a um quadro político de apoio que integre a mandioca na estratégia de segurança alimentar do Quénia, incluindo incentivos como isenções fiscais ou apoio a infraestruturas para indústrias baseadas na mandioca.

Este artigo foi escrito por Gilbert Nakweya

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