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[CAMPALA] Investigadores ugandeses desenvolveram um método para transformar os resíduos gerados pela produção de couro numa solução agrícola rica em nutrientes para a cafeicultura. A inovação aborda desafios críticos no…
- Investigadores ugandeses desenvolvem fertilizante orgânico inteligente a partir de resíduos do processamento de couro
- O fertilizante à base de colagénio liberta nutrientes no solo quando necessário
- Investigadores planeiam aumentar a produção e expandir para além do Uganda
[CAMPALA] Investigadores ugandeses desenvolveram um método para transformar os resíduos gerados pela produção de couro numa solução agrícola rica em nutrientes para a cafeicultura.
A inovação aborda desafios críticos no setor agrícola do Uganda, visando a gestão de resíduos e a fertilidade do solo através de uma abordagem cientificamente avançada à produção de fertilizantes orgânicos.
Ao transformar os resíduos do processamento de couro num fertilizante orgânico inteligente, os cientistas esperam melhorar o crescimento económico, a sustentabilidade ambiental e o bem-estar social, afirmou Simon Peter Musinguzi, investigador principal e professor sénior na Universidade dos Mártires do Uganda.
A produção de couro, conhecida como curtimenta, gera uma grande quantidade de resíduos industriais que, normalmente, não são aproveitados e colocam desafios ambientais, de acordo com Musinguzi.
“O processo de curtimenta utiliza apenas 20% da pele do couro, deixando 80% como resíduo, o que contribui para a poluição e é perigoso para as comunidades próximas dos curtumes”, afirmou.
“Vimos uma oportunidade de transformar estes resíduos em algo benéfico — um fertilizante orgânico que apoia a agricultura, o ambiente e os rendimentos dos agricultores.”
A equipa iniciou a sua investigação no ano passado com um financiamento de 125 milhões de xelins ugandeses (34.000 $) do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia do Uganda, no âmbito da Iniciativa dos Conselhos de Concessão de Bolsas Científicas (SGCI).
Concentraram-se no café — a principal cultura comercial do Uganda, cultivada por 1,8 milhões de agregados familiares — mas afirmam que o seu fertilizante também poderá ser utilizado noutras culturas.
O Uganda produz 393.900 toneladas de café por ano, o que o torna o segundo maior produtor em África e o sexto a nível mundial. No entanto, corre o risco de perder a sua posição competitiva devido a métodos de cultivo deficientes, fertilizantes ineficazes e condições ambientais desafiantes.
Extração de colagénio
O ingrediente principal do fertilizante é o colagénio, uma proteína extraída da pele animal. Esta é utilizada para fabricar um hidrogel enriquecido com nutrientes como azoto, fósforo e potássio, essenciais para o crescimento das plantas.
O fertilizante “inteligente” fornece estes nutrientes ao solo conforme necessário, afirma Musinguzi.
“O aspeto inteligente deste fertilizante é a sua capacidade de detetar e libertar nutrientes com base nas necessidades do solo”, explicou.
“Se faltar um determinado nutriente, o fertilizante responde em conformidade, reduzindo a necessidade de aplicações repetidas.”
O fertilizante também ajuda o solo a reter a humidade, reduzindo potencialmente o impacto das secas nas plantações de café, afirma.
Uma vitória para os agricultores
Frank Matovu, um cafeicultor em Masaka cuja exploração foi utilizada para testar o fertilizante, afirma ter visto resultados notáveis.
Refere que outros fertilizantes precisam de ser aplicados mais de duas vezes por época.
“Para o café, somos obrigados a pulverizar pelo menos oito vezes por ano, e o maior problema é que a maioria destes fertilizantes não são orgânicos”, disse Matovu, acrescentando que isto reduz os preços de mercado, porque os compradores preferem produtos orgânicos.

Os fertilizantes químicos enfraquecem o solo ao longo do tempo, forçando os agricultores a uma dependência a longo prazo, afirma Matovu: “Assim que se começa a usá-los, o solo nunca mais se consegue sustentar sozinho, o que significa que precisará sempre de fertilizante. Torna-se um fardo económico e uma ameaça para a agricultura futura.”
A União Europeia, o maior mercado de café do Uganda, quer que os agricultores adotem práticas mais sustentáveis, incluindo fertilizantes orgânicos.
Mas Matovu afirma que estes podem ser difíceis de encontrar: “São caros e a maioria deles são falsos, não funcionam, por isso este [novo fertilizante] é uma grande vitória para nós, agricultores.”
Aumentar a escala
Geoffrey Seruwu, da Organização Nacional de Investigação Agrícola (NARO), acredita que a inovação poderá ser um ganho significativo para o setor agrícola do Uganda.
“Muitos fertilizantes no mercado criam um ciclo de dependência — os agricultores têm de continuar a usá-los, ou os seus rendimentos caem”, disse Seruwu.
“Se esta investigação cumprir o que promete, o Uganda poderá não só fortalecer o seu setor cafeeiro, mas também melhorar a produção de culturas de alto valor, como o abacate Hass, que tem uma elevada procura na Europa.”
Afirma que a NARO está aberta a colaborar com investigadores locais como Musinguzi para garantir que o fertilizante chegue aos agricultores em larga escala.
Os investigadores estão atualmente a avaliar a longevidade do fertilizante no solo e pretendem ter um produto pronto para o mercado até novembro deste ano. Esperam abastecer os mercados da Etiópia, Quénia e República Democrática do Congo, bem como do Uganda.
“Quando tudo estiver concluído, procuraremos parcerias com o governo e outras partes interessadas do setor agrícola, e isso determinará o preço e a forma de aumentar a produção”, acrescentou Musinguzi.
Este artigo foi escrito por John Musenze.
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